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José de Mello, SGPS
José Bento dos Santos
> 1/10/2004
Sou palavroso e analítico, não sou sintético. Quando escrevo um artigo sofro imenso, aquilo começa por ter cem páginas. A actividade de "brokerage" permitiu-lhe correr o mundo e cultivar o gosto pela mesa. Engarrafar essa experiência foi o segundo passo. José Bento dos Santos fez fortuna nos metais e está a fazer nome nos vinhos. Os metais permitiram-lhe conhecer o mundo, os melhores restaurantes, os cozinheiros e os vinhos todos, que foi coleccionando, na adega e na memória. O "broker", presidente da Quimibro, tem hoje a cabeça cada vez ma s voltada para os seus jardins de syrah-viognier, e para a produção de néctares como o que um tal Alain Ducasse revelou à imprensa mundial, na inauguração de um restaurante em Nova Iorque. Não sigo líderes, sempre procurei cultivar-me nas áreas do meu interesse. No râguebi tenho a maior biblioteca que há SOU ENGENHEIRO QUÍMICO de formação. Comecei a trabalhar na antiga CUF, no Barreiro, na metalurgia do ouro e do cobre, da prata e depois na do zinco e do chumbo. Quando um tipo entrava naquela empresa, passava dez anos nos centros de investigação, a conhecer a indústria. A minha ascensão na CUF foi bastante mais rápida. Cheguei num mês de Outubro, com uns 22 ou 23 anos, vindo da Noruega, de um estágio numa fábrica de cerveja. Tinha-me formado nesse ano, quatro meses antes. Na altura, apesar da minha idade, era treinador da selecção nacional de râguebi. Um dia houve um "quid pro quo" na fábrica e fui chamado pelo director, José Frederico ca Cunha, para uma conversa. Ele tinha jogado râguebi, sabia quem eu era, e disse-me: "Se és capaz de treinar uma equipa de râguebi, também és capaz de dirigir uma fábrica". E foi assim, de um dia para o outro, que me pôs quatrocentos operários em cima. O meu dia-a-dia passou a ser o de garantir a apresentação de não sei quantas toneladas de cobre, de zinco; resolver os problemas das manutenções, mas sobretudo os do pessoal. Não se; pode fazer ideia do que são quatrocentos operários metalúrgicos, naquela altura, no Barreiro. E impossível imaginar a dureza daquela gente, os problemas sociais por que passavam. Ao fim de dois meses, entra um tipo no gabinete, fecha a porta à chave e diz-me: "Estou aqui para o matar". Estive duas horas a falar com ele, ao fim desse tempo, fiquei com um amigo capaz de dar a vida por mim, o Pascoal. Queria emigrar para a Alemanha, inscreveu-se, foi à inspecção médica e não passou. Meteu-se-lhe na cabeça que era a CUF que não o deixava ir, como para ele a CUF era eu, e era preciso matar alguém... Por acaso, ontem almocei em casa do José Manuel de Mello, levei-lhe uma garrafa do melhor syrah e disse-lhe: "tenho uma dívida de gratidão consigo. A escola de vida que tive é única". Dou uma cadeira de opção no Técnico sobre "o Sentido do Gosto" e todas as aulas tenho que pôr 10 pessoas na rua. SOU DE UMA FAMÍLIA de comerciantes, o comércio foi sempre a nossa actividade principal e a certa altura, na CUF, achei que era o que queria fazer. Tirei Económicas à noite até ao quarto ano nãoacabei - para dedicar-me à área comercial na empresa. Foi assim que me tomei num "broker" de metais. Foi também isso que me permitiu correr o mundo inteiro para comprar matériaprima aqui, transformá-la ali e transportá-la para acolá, trocar isto por aquilo, vender cobre para Cuba, que me paga. Seguro do que sei chover com sais de prata, porque têm que ter água para a mina, ter que ir para a mina na Austrália, ou para a fábrica no Canadá... - Viajar com paixão pela mesa O sentido do gosto grande pela mesa, pela comida e pelo vinho - sempre fui cozinheiro, sempre gostei muito de cozinhar - permitiu-me conhecer locais de grande gabarito. A vida comercial presta-se a convidarmos e a sermos convidados a frequentar os melhores locais. Sempre falei com os cozinheiros, às vezes, até às tantas da manhã, e aprendi muito. Isso também me permitiu ir coleccionando vinhos. Comecei muito cedo a comprar vinhos nos leilões da Christie''s e da Sotheby''s, e a ter uma cada vez melhor noção do que era o vinho, do ponto de vista do produto de consumo, mas também do ponto de vista do que é um produto de prazer. Cada vez se tomou mais sólida a noção de que cada vinho serve uma ocasião. Na CUF [com Eduardo Catroga QUANDO PASSEI para a parte comercial dos metais na CUF, com Eduardo Catroga como administrador, produzíamos cerca de cinco mil toneladas de cobre que vendíamos, umas mil toneladas de chumbo e umas quatro mil de zinco, não sei quanto de ouro e prata. Acontece que o país consumia quarenta mil toneladas de alumínio e nós não fazíamos alumínio, consumia quarenta toneladas de cobre, fazíamos cinco mil. Percebi que, se éramos produtores, com os canais de comunicação com-as empresas abertos, tínhamos tudo para tomar aquele mercado. Fui à procura dos fornecedores. Esta situação teve duas implicações. Por um lado, aumentou o envolvimento financeiro da empresa, por outro, começámos a precisar de apoio internacional ao nível da actividade de "brokerage". - A Glencore | e o "trading" pelo "trading" DE REPENTE, há um grande "broker" mundial - a Glencore Internacional - que se quer instalar em Portugal, determinado a fazer-nos concorrência. Eduardo Catroga e eu conhecíamos bem esse "broker", com quem trabalhávamos há algum tempo, e pensámos numa associação 60/40, controlo nosso, e fundámos a Quimibro. A partir daí, ficámos com uma liberdade imensa para actuar no "trading" pelo "trading" e isso contribuiu muito para o desenvolvimento da Quimibro. Até que Quimigal deixou de produzir metais e quis vender a quota. Eu fiquei com 15% e a Glencore com o resto. Mais tarde, no início dos anos 90, a Glencore sofreu uma remodelação e cedeu-me a quota, de forma até bastante generosa, passando nós a ser uma espécie de agente deles, com autonomia plena. - Ex-patrões apostam agora nos serviços O "TRADING" de metais alterou-se profundamente. Até há poucos anos ninguém estava para se deslocar à China ou à índia. Hoje, com a revolução das comunicações e dos transportes, isto passou a ser "bread and butter". Nós continuamos a fazer o nosso "trading", à nossa dimensão, aqui e ali fora de Portugal, mas, à semelhança do que aconteceu com grandes casas mundiais, fomos perdendo a capacidade de viajar pelo mundo inteiro, para fazer o grande "trading", que exige hoje volumes de créditos astronómicos. Mantemos um volume de negócios que não é despiciendo, mas hoje não é fácil estar neste negócio. Estamos quase só em Portugal e Portugal já não tem indústria. As pessoas que me empregaram quando era jovem apostam hoje nos serviços, não na indústria. É mais fácil, é mais barato. A indústria precisa de incentivos e de políticos com preparação que a defendam. O drama é que, antigamente, os gregos reformavam-se e iam para a política levando a experiência de uma vida. Hoje é ao contrário, as carreiras começam na política e os senadores definem-se, precisamente, por ser aqueles que abandonaram a política, que estão cima dela. A aventura do Monte d''Oiro A QUINTA do Monted''Oiro e a minha aventura pelos vinhos começa antes de eu nascer. Os meus pais tiveram uma belíssima casa com alguma propriedade ao lado da quinta [em Alenquer]. Conheci aquela quinta com bois e cavalos, o dono tinha aquilo impecável, até adoeceu, veio para Lisboa e alugou aquilo. O meu pai um dia soube que o homem não andava satisfeito porque o tipo a quem ele tinha alugado a quinta não a estimava. O homem não tinha filhos e foi o meu pai que me convenceu de que talvez vendesse aquilo a quem ele soubesse que iria estimar a quinta. Entrei ali, porque sempre rinha gostado daquela quinta, mas ainda sem a ideia de fazer o que ali está. A quinta tinha 15 ou 20 hectares de vinha, o caseiro fazia vinho e eu continuei a fazer aquele vinho, mas não tinha orgulho nenhum naquilo e lá ia dizendo: "ainda hei-de fazer uma vinha como deve ser". Estava longe de imaginar que um dia o Alain Ducasse um dos mais conceituados cozinheiros do mundo, iria, sem eu saber, colocar um vinho da Quinta Monte d''Oiro, o Vinha da Nora 1999, na ementa de estreia do seu restaurante em Nova Iorque, para a qual convidou a imprensa de todo o mundo. Um mundo que não é só este daqui TIVE A SORTE de crescer numa casa em que, posso dizer, se comia bem. Tive a sorte de ter tido um pai que gostava de vinho e que tinha algum cuidado com o vinho que escolhia e até gostava de coleccionar umas garrafas. Tive a sorte de, durante a minha universidade, jogar râguebi, uma coisa genial que me aconteceu na vida. Tive a sorte de, no meu segundo ano de faculdade, com 17 ou 18 anos, ter ido a Bordéus jogar contra o Bordeaux Etudiants Club, com o meu amigo António Carqueijeiro, e de ter visitado várias caves de Bordéus e bebido alguns desses grandes vinhos. Ainda guardo algumas garrafas que trouxe. Tive a sorte de, desde muito cedo, ter rido um contacto com algo que gostava, que depois fui aprofundando até à idade que tenho, com a consciência, desde então, de um mundo que não era só este daqui. Projectos Não durmo, mas vivo com um entusiasmo permanente José Bento dos Santos vai, em breve, publicar dois livros. Um com todos os artigos que tem escrito e que "terá mais de seiscentas paginas". O outro será uma espécie de dedicatória a um vinho, dele, que ainda não entrou na garrafa. "É uma espécie de justificação sobre as razões que nos levaram a fazer aquele vinho", diz, para depois se queixar "Não tive férias por causa disso". "É um vinho diferente de tudo o que existe. É um viognier que está para ser lançado, chama-se vindima 7 de Outubro", revela. Já o livro chamar-se-á "Subtilezas gastronómicas propostas à volta de um vinho". "Explico tudo o que é a casta, porque é que se chegou aqui, como é que se vinificou, todas as relações deste vinho com todos os tipos de comida. Onde é que ele supre os outros vinhos, com o que é que vate e não vale a pena bebê-to. Também escrevo as receitas que me parecem adequadas. Vai ser engarrafado dentro de muito pouco tempo, numa garrafa muito especial que mandei vir de França. Foi vindimado em 2003. É um viognier muito especial, que não tem a ver nada com o que estamos a fazer este ano, que aconteceu por acaso e, uma vez que estávamos na rampa de lançamento, acabámos por fazê-to. As receitas que escrevo neste livro são todas minhas, aparece lá tudo o que, com aquele vinho, se tem um prazer redobrado, peixes, carnes, queijos, entradas". Para além dos livros, o "broker" viticultor foi desafiado a fazer um DVD e vai fazê-to. "A reforma é uma coisa que não me assenta bem", diz. Tenho tipos a mostrarem-me cartões amarelos e a dizer que devia parar um pouco. Está bem, mas vou para o Michet Chapoutier [conceituado produtor francês com quem JBS desenvolve uma parceria], ele dá-me uma refeição que dava para uma semana para os dois, dá-me vinte vinhos a beber, fico arrumado. Devia perder dez ou vinte quilos, sim, mas falta-me o tempo. Não durmo, mas vivo com um entusiasmo permanente".
Jornal Negócios, Páginas 18 e 19
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