“ Os problemas não se resolvem com atitudes moles”
Ernâni Lopes considera que os anos vividos em Bona, onde foi embaixador,
foram os mais felizes da sua vida. Não esconde também p grande orgulho que sente
na coragem que teve ao tomar decisões muito difíceis quando foi ministro das
Finanças no governo liderado por Mário Soares. Aos 67 anos, é um dos economistas
mais respeitados no país, mas as grandes lições de vida foram recebias nos
últimos três anos, depois de lhe ter sido diagnosticado um linfoma. Hoje, diz
que o remédio mais difícil de tomar é ser obrigado a trabalhar menos.
Porque decidiu estudar Economia?
Lá em casa havia essa ideia desde o princípio. E eu desde muito novo tinha ideia
de ir para um curso de Ciências Naturais, mas acabei por fazer o percurso todo
das Económicas e apenas mantive o gosto pelas Ciências Naturais, sobretudo
Física e Química. A vingança aconteceu toda na geração dos meus filhos. Tenho
uma filha bióloga e duas filhas médicas.
Já a entrada na Armada surge totalmente por vontade própria.
Sim. Prestei serviço militar e escolhi conscientemente a Marinha, até porque só
éramos aceites por inscrição. A guerra era uma realidade relativamente recente.
Eu entrei em 1964 e estive lá três anos, primeiro como Cadete, depois como
Aspirante e mais tarde como Oficial da Reserva Naval, da Classe de Administração
Naval. Tenho uma recordação excepcionalmente forte do meu serviço militar,
enquanto serviço, sentimento de honra, cumprimento do dever e algo que não tem
substituto, que é o sentimento de ligação a Portugal. Tenho a maior das honras
em ter sido Oficial da Reserva Naval e hei-de continuar a sê-lo até morrer. Com
muito gosto, sou membro da Associação dos Oficiais da Reserva Naval. E aquilo
que a caracteriza e que sinto explica-se em 3 C’s: Consciência, Camaradagem e
Cidadania.
Não chegou a ir para o Ultramar?
Não, mas muitos camaradas meus foram. Também não casei enquanto tive dúvidas
sobre se ia ou não ia. Não queria fazer viúvas. Decidi aguardar e só casei
quando já acreditava que não iria ser mobilizado, faltava um ano para acabar o
serviço militar. Ainda assim, a dois meses de terminar, ainda foi colocada a
perspectiva de ir para a Guiné por mais dois anos; mas acabei por não ir.
Esse sentido patriótico é reforçado quando se vive fora de Portugal. Foi o
que sentiu quando esteve a viver na Alemanha como embaixador de Portugal?
Viver fora ajuda imenso a reforçar esse sentimento. Fui primeiro com a minha
mulher e a pouco e pouco reunimos lá toda a família. Estive lá quatro anos e
meio. Lembro-me perfeitamente de ter lá chegado a 25 de Fevereiro de 1975.
Inicialmente estava previsto viajar uma semana antes, a 18, mas pedi esse
adiamento para chegar lá oficialmente com mais um ano de idade.
O cargo de embaixador foi marcante na sua carreira?
O papel de um embaixador pode ter uma leitura formal, que é o cumprimento de uma
função clássica e razoavelmente bem definida, mas tem, num segundo plano, uma
missão que é aquela que o próprio embaixador quiser que seja, pois tem uma
enorme margem de manobra. Na Alemanha não parei, andava sempre de um lado para o
outro, para assegurar o interesse e o apoio da Alemanha na evolução democrática
em Portugal. Tinha Portugal em convulsão. Mas os anos que passei em Bona foram
os mais felizes da minha vida. Sente-se Portugal na mesma, mas com muito mais
intensidade. Na verdade, só senti falta de duas coisas quando lá estava. Uma
delas foi o mar. Não me tinha apercebido de quanta falta ele me fazia. A outra
foram os grelos. Não havia grelos na Alemanha. Para mim, era desagradável – e
procurava compensar sempre que vinha a Lisboa.
Que tipo de emigração portuguesa estava nessa época na Alemanha?
Tínhamos lá 120 mil portugueses. Era uma emigração muito diferente daquela que
estava em França, para onde muitos portugueses iam “a salto”, ilegalmente. Na
Alemanha havia uma emigração organizada e legalizada, uma vez que o Governo
alemão tinha implementado desde muito cedo, nos anos 60, um sistema de selecção
dos emigrantes. E a Alemanha desempenhou um papel fundamental na preservação do
regime democrático em Portugal.
Seguiu depois para Bruxelas.
Sim, a viagem era curta, de carro, e deixei Bona no mesmo dia em que cheguei a
Bruxelas. Fui para Bruxelas para negociar a adesão de Portugal à Comunidade
Económica Europeia (CEE). Demorou oito anos.
Presumo que ser ministro das Finanças tenha sido um desafio muito
diferente?
Completamente diferente. Nunca tive interesse nenhum em ser membro de um Governo
ou fazer carreira política. Recusei convites para Governo cerca de uma dezena de
vezes. Mas aceitei uma vez, por uma confluência de razões. Eu conhecia bem a
situação de Portugal. Não tive ilusões nem surpresas. Quando estava na Alemanha
vinha muito a Lisboa. E pelo menos durante dois anos era raro o dia em que duas
cadeias de televisão alemã não abriam os noticiários com informações sobre
Portugal. Uma vez até foram filmar a uma localidade chamada Chãos porque o til
não existe em alemão e o nome da terra aparecia, para os Alemães, como Chaos,
que lido por um alemão significa “caos”. Além disso, eu tinha a minha base no
Banco de Portugal, o que também ajudava a ler a situação do país. E nós tínhamos
o país numa situação de crise cambial aguda, com ausência absoluta de crédito
internacional e, logo, sem capacidade de financiar as suas necessidades,
nomeadamente em matéria de moeda estrangeira. Compreendi a atitude de serviço a
Portugal e de coragem do indigitado primeiro-ministro, Mário Soares, e do
indigitado vice-primeiro-ministro, Mota Pinto, que conhecia bastante bem. E
assim disse a Mário Soares que aceitava ser ministro das Finanças pelo Governo
PS/PSD, onde era o único ministro independente.
Ter um Bloco Central ajudou?
Eu considero que foi muito importante para Portugal; foi a única maneira de se
fazer aquilo que se tinha de fazer e se fez. A situação era francamente difícil.
Fui o único ministro a quem o primeiro-ministro deu total liberdade para
escolher os seus secretários de Estado, sem que os partidos tivessem
participação na escolha. E tive uma equipa de primeira categoria, composta por
Alípio Dias, António de Almeida, Rui Martins dos Santos, Mário Cristina de Sousa
e ainda António Marta como presidente da Comissão de Integração Europeia e José
Amaral como chefe de gabinete. A todos expliquei que iríamos encontrar uma
situação muito difícil, que teríamos de tomar medidas indispensáveis e pouco
agradáveis, o que nos sujeitaria a muitos ataques e pressões; e que, se não
estivessem numa atitude de despojamento interior total, era melhor não aceitarem
– porque não iriam aguentar a pressão.
É dessa forma que a actual equipa do Ministério das Finanças tem de pensar,
tendo em conta que também encontra hoje o país em situação difícil?
Não tem escolha. Se é para resolver os problemas, tem de ser desta maneira
porque os problemas não se resolvem com atitudes moles. Mas estamos a falar de
épocas completamente diferentes. Só têm comparação na dificuldade e na
complexidade, não têm comparação na circunstância histórica e nos mecanismos
económicos.
NUNCA TIVE INTERESSE NENHUM EM SER MEMBRO DE UM GOVERNO OU FAZER CARREIRA
POLÍTICA. RECUSEI CONVITES PARA GOVERNO CERCA DE UMA DEZENA DE VEZES. MAS
ACEITEI UMA VEZ, POR UMA CONFLUÊNCIA DE RAZÕES
Chegou a arrepender-se de alguma medida tomada?
Não me lembro de nenhuma. Mas lembro-me de uma medida que tomei contrariado e
que nunca mais me esquecerei. Depois de ter tomado as medidas necessárias para o
arranque da estabilização do país fui forçado, na negociação com o FMI, a
aumentar a taxa de juro em mais dois pontos percentuais, para nada. Foi
absolutamente irrelevante. Eu, por mim, não cedia, mas tive a noção que se
mantivesse a minha posição não fechávamos o acordo de estabilização e a
República perdia muito. Com isto, se não tinha divisas, passei a ter porque um
mês depois estava em Washington a negociar crédito para a República e o Fundo
Monetário Internacional (FMI) esteve permanentemente ao meu lado.
O país tem sabido tirar lições das crises do passado?
Tirar lições, tira; mas não sei se as aprende. Honestamente não sei. Gostava que
tivesse aprendido, mas não tenho a certeza. Há várias lições que devia tirar. A
primeira é a de que, em economia, o ajustamento ocorre sempre. Não há maneira de
se poder fugir ao ajustamento. A segunda lição óbvia é a de que o ajustamento,
quanto mais tardio for, mais difícil é do ponto de vista técnico e mais penoso é
do ponto de vista social. E, em terceiro, a entrada na moeda única altera de
alto a baixo os mecanismos de ajustamento na economia, quando a aparência da
realidade da política económica é a mesma. Com a entrada na moeda única, as
pessoas convenceram-se que passavam a ter as taxas de juro da Alemanha com a
produtividade de Marrocos ou algo parecido. Agora o problema desta última década
é que quando as pessoas viram desaparecer o escudo, viram também os juros a
baixarem, viram que não havia desvalorização e acreditaram que iriam ter uma
melhoria continuada sem fazer esforço e sem fazer o ajustamento – e esse foi o
pecado mortal. A baixa produtividade e a falha de competitividade levaram ao
crescimento preocupante do endividamento externo.
HÁ UMA CONFLUÊNCIA DE DOIS MECANISMOS DE PROPAGANDA QUE SÃO OS VERDADEIROS
RESPONSÁVEIS, EM TERMOS SOCIOLÓGICOS, DO QUE ACONTECE EM TERMOS ECONÓMICOS E
FINANCEIROS: A PROPAGANDA DOS VÁRIOS GOVERNOS E A PROPAGANDA DO SISTEMA BANCÁRIO
PARA QUE AS FAMÍLIAS SE ENDIVIDEM. DEVO CONFESSAR-LHE QUE AINDA CONTINUO A TER
DIFICULDADES EM PERCEBER PROPOSTAS DE ENDIVIDAMENTO PARA FAZER FÉRIAS NAS
SEYCHELLES
O crédito teve culpas no endividamento das famílias?
Teve bastantes, porventura demasiadas. A partir de 1986, com a entrada do país
na CEE e o acesso a fundos comunitários e, por outro lado, com a estabilização
feita, os Portugueses descobrem o consumo quando antes eram extremamente
prudentes e aforradores. Há uma alteração cultural. E depois, os Portugueses
descobrem o crédito. Aí há uma confluência de dois mecanismos de propaganda que
são os verdadeiros responsáveis, em termos sociológicos, do que acontece em
termos económicos e financeiros: a propaganda dos vários governos e a propaganda
do sistema bancário para que as famílias se endividem. Devo confessar-lhe que
ainda continuo a ter dificuldades em perceber propostas de endividamento para
fazer férias nas Seychelles. Percebo que se faça crédito para ter uma casa, com
a prudência adequada; agora crédito para consumo directo e supérfluo está, antes
de mais, relacionado com ganância dos bancos e dos políticos – e, no final, com
expectativas, por vezes ilusórias, das famílias.
É expectável que os Portugueses se tornem mais aforradores nos próximos
tempos?
Antes de mais, é desejável. Não tenho a certeza, mas oxalá que sim.
E por onde é que o Estado tem que começar a fazer cortes para reduzir a
despesa pública?
Aí será certamente um corte tendencialmente próximo dos dois dígitos, se
tivermos em atenção que a despesa pública vale, hoje, metade do Produto Interno
Bruto (PIB). Quando a percentagem do défice das contas com o exterior em termos
de PIB anda nos 9-10% há mais de uma década, não há por onde escapar.
Sendo assim, o que se deve fazer aos projectos de grandes obras públicas?
Avançar, adiar ou cancelar?
Tem havido pouco cuidado em perceber o impulso à economia resultante do
investimento público. É que grande parte destes investimentos de que se fala, e
em particular o comboio, pouco é investimento de aquisições à economia
portuguesa. O grosso da coluna é importado. E é tudo comprado a crédito. Eu não
sou nem posso ser contra comboios de alta velocidade, em tese. Considero
essencial a ligação de Portugal às redes europeias, neste caso, de alta
velocidade. Quando falamos de alta velocidade não são necessariamente apenas
fins-de-semana em Madrid: mas falamos sobretudo de mercadorias. A grande
vantagem da alta velocidade é o transporte de mercadorias dos portos portugueses
para o interior da Europa. Mas não vejo qual o argumento para, na situação
actual, se fazer este volume de investimento; haverá que aguardar melhores
condições. Há maneiras muito mais eficazes de fazer investimento público útil (p.e.,
com obras locais, como a renovação de escolas).
TEM HAVIDO POUCO CUIDADO EM PERCEBER O IMPULSO À ECONOMIA RESULTANTE DO
INVESTIMENTO PÚBLICO. É QUE GRANDE PARTE DESTES INVESTIMENTOS DE QUE SE FALA, E
EM PARTICULAR O COMBOIO, POUCO É INVESTIMENTO DE AQUISIÇÕES À ECONOMIA
PORTUGUESA. O GROSSO DA COLUNA É IMPORTADO. E É TUDO COMPRADO A CRÉDITO
Nunca escondeu que combate um cancro. Mudou muita coisa na sua vida com esta
doença?
Foi-me diagnosticado um linfoma em 2005, na sequência de uma lesão na cara que
nunca mais passava e até se alastrava. Depois de tanto insistirem comigo para ir
ao médico submeti-me a uma biopsia, foram detectadas células cancerosas. Fui
tratado no Instituto Português de Oncologia (IPO), que para mim é uma
instituição que, numa escala de uma a cinco estrelas, tem sete. Consegui uma
remissão completa e passei a fazer apenas vigilância e exames de rotina. Mantive
a minha vida normal, não deixei de fumar e tudo andava aparentemente bem até ao
ano passado. Nesses três anos percebi que o cancro foi uma verdadeira bênção.
Passei a ver as coisas com um distanciamento maior e a uma profundidade
incomparavelmente maior, percebendo a pequenez da vida corrente. Depois, deparei-me
com o papel absolutamente decisivo da família e dos amigos, a que se juntou o
pessoal clínico, de enfermagem e auxiliar do IPO.
A 31 de Dezembro de 2008 desmaiei em casa e a minha filha Maria, uma das médicas,
levou-me para o IPO; tive uma fractura do baço, com grande probabilidade de não
sobrevivência à hemorragia abdominal. Estive inconsciente, em coma induzido
durante três dias; e na iminência de morrer durante ainda mais algum tempo, em
plena e perfeita consciência. E aqui tudo se torna mais interessante, tendo
vivido um dos períodos mais importantes da minha vida, confrontando-me com a
morte quase cara-a-cara. Esta foi mesmo uma grande bênção, que fez e faz
repensar tudo, até porque fiquei um mês e meio imobilizado no hospital; e tempo
para pensar era o que mais tinha. Mas aqui tudo o que eu sabia sobre a família e
os amigos foi elevado exponencialmente, com um sentimento, que me era
desconhecido, de plenitude, de compreender a vida – e de um vislumbrar do
infinito e do eterno. A cadeia de orações dos amigos à escala internacional tem
um poder indescritível sobre nós, numa vivência quase física da comunhão dos
santos.
Teve impacto na sua fé?
Não, porque ela já cá estava. Foi alimentada. E é claro que fica um grande
sentimento de gratidão. No fundo das coisas, fiquei muito mais rico do que
estava.
E como é hoje a sua vida?
Cortei com o álcool e deixei de fumar, aliás, ainda antes da situação aguda do
baço a que me referi. Hoje sintome bem, estou muito vigiado e a situação clínica
do linfoma parece estar controlada. Os médicos dizem que não posso estar melhor,
mas querem que eu trabalhe bastante menos, o que é um remédio bastante difícil
de tomar. Geralmente não faço esforço para trabalhar; faço força para não
trabalhar. Voltei a trabalhar a 1 de Junho, depois de um longo período de
convalescença, mas tenho procurado reduzir o volume de trabalho. O aspecto
prático que mais me desagrada é que estou proibido, pelos médicos, de viajar
para os trópicos, onde trabalhei durante mais de duas décadas como consultor,
professor e conferencista. Tenho de me resignar, embora contrariado – e pondo
alguma esperança nas telecomunicações.
PERCEBI QUE O CANCRO FOI UMA VERDADEIRA BÊNÇÃO. PASSEI A VER AS COISAS COM UM
DISTANCIAMENTO MAIOR E A UMA PROFUNDIDADE INCOMPARAVELMENTE MAIOR, PERCEBENDO A
PEQUENEZ DA VIDA CORRENTE